Texto bíblico: Lucas 5: 1-11
Escrito por: Rogério Jardim
A narrativa feita pelo médico e evangelista Lucas começa mostrando uma situação de fracasso, onde o protagonista dessa história é o pescador Pedro. O texto mostra que este havia passado a noite inteira tentando pescar, mas aquela noite foi improdutiva. Ao amanhecer, junto com o cansaço de toda uma noite de trabalho, certamente veio também à decepção por saber que a improdutividade daquela noite poderia comprometer, não só o sustento familiar, como também o sustento dos seus negócios.
Até aquele momento Pedro era só um pescador, que fazia da arte da pesca sua fonte de sustento pessoal e profissional, segundo nos mostram os relatos de Lucas (Lucas 5: 10) e Marcos (Marcos 1: 20), pois era empresário atuante no ramo da pesca. O interessante é que até aquela noite acabar Pedro era apenas Simão, o pescador. Mas ao amanhecer aquele dia sua vida foi marcada de uma forma muito intensa. Jesus o encontrou.
Na análise desse episódio vemos que Pedro e seus companheiros se preparavam para recolherem as redes que haviam utilizado durante a noite na tentativa da pesca. Para Pedro a noite já havia acabado, tanto quanto sua esperança, mas quando se preparava para recolher as redes Jesus chega e lhe surpreende de duas formas: A primeira foi ao dizer-lhe que voltasse para o mar e lançasse as redes novamente. A segunda foi realizando o impossível, trazendo os peixes para as redes de Pedro ao ponto de quase sucumbirem os barcos, tamanha fora a proporção da pesca.
Ao ser abordado por Jesus, Pedro é confrontado a algo: Que leve Jesus no seu barco para o outro lado. Ao fazer isso Jesus lhe ordena que se lance ao mar novamente. Seguindo essa ordem Pedro volta para o mesmo ponto que havia feito a tentativa durante a noite. É importante observar que o mar era o mesmo, o barco era o mesmo, as redes eram as mesmas e o pescador também era o mesmo. O diferencial desse momento é que agora Jesus estava nesse barco com aquele pescador para enfrentar aquele mar frustrante, e sob a ordem do mestre lançaria as mesmas redes.
Outro ponto importante a ser observado é que essa não era a primeira vez que Pedro havia estado com Jesus, pois antes de ser chamado como discípulo Pedro o recebeu em sua casa, quando sua sogra foi curada por Jesus (Lucas 4: 38,39). Certamente Pedro já o admirava por isso, mas apenas admiração não era o suficiente para que Pedro entendesse o verdadeiro interesse de Cristo querer lhe chamar a atenção.
Se analisarmos esse contexto em nossa vida, com certeza identificaremos os mesmos pontos de deficiência que Pedro teve. Pois em várias situações o Senhor já manifestou o seu cuidado para conosco, já operou um milagre, ou, mostrou sua fidelidade num momento que nos sentimos sem recursos, habilidades ou estratégias para vencermos nossas dificuldades. Mas ainda assim, isso tudo parece não ser suficiente para chamar nossa atenção e reconhecê-lo de tal forma que nos faça abrir mão de nossos fracassos, interesses e vontades para segui-lo.
Num dado momento de seu ministério Jesus foi muito profundo ao dizer, que todo aquele que quisesse andar com ele deveria negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e segui-lo (Mateus 16:24). Nos dias de Jesus, cruz era a forma mais cruel e vergonhosa de castigo e morte para alguém que houvesse cometido algum delito. Por isso o individuo era exposto à vergonha por tais atos carregando a própria cruz, na qual iria morrer (João 19: 17 / Lucas 23: 26). Obviamente nos nossos dias não seriamos crucificados numa cruz como foram Jesus, Pedro e outros que a história mostra, mas a cruz que devemos tomar é exatamente essa: Suportar a responsabilidade de se expor como testemunho vivo do evangelho que nos propomos a anunciar, bem como enfrentar as dificuldades que ele pode trazer, e não somente os benefícios (João 16:33).
O texto bíblico nos mostra que após o milagre ser realizado, Jesus faz uma proposta a Pedro; a partir daquele momento não seria apenas um pescador de peixes, mas passaria a pescar (atrair / chamar / falar para) pessoas. Isto nos ensina uma grande lição: quando achamos que tudo o que temos é pouco demais para que o Senhor possa usar em prol do seu reino, ele mostra que tem poder para transformar o nada que temos em muito, como aconteceu quando Pedro recebeu a ordem para voltar ao mar, à primeira coisa que disse foi “já tentei a noite toda, mas não deu em nada” (Lucas 5:5), e só depois assume a consciência e se permite cumprir a ordem dada por Jesus.
A verdade é que em muitos momentos de nossa vida quando sentimos Deus nos chamando para algo, é da nossa natureza criar algum empecilho para a concretização desta ação divina. Essa parte da análise nos faz voltar ao livro de Êxodo, quando Deus chama Moisés para libertar o seu povo que estava sofrendo no cativeiro egípcio. Moisés talvez tenha sido o campeão em criar empecilhos para evitar que Deus pudesse fazer o que precisava através dele, pois quando o senhor o chama do meio da sarça ardente a fim de enviá-lo a libertar o seu povo (Êxodo 3: 7-10), Moisés levanta os primeiros empecilhos:
1) Sente-se incapaz de cumprir a convocação feita por Deus (Êxodo 3: 11);
2) Não consegue crer naquilo para o qual está sendo chamado (Êxodo 4: 1);
3) Atribui seu medo em aceitar o chamado de Deus a um defeito que tinha na fala (Êxodo 4: 10);
4) chega ao ponto de assumir a posição de covarde, para não se permitir ser usado por Deus no propósito de libertar o seu povo hebreu (Êxodo 4: 13).
Em todos os tópicos citados acima, Deus mostrou a solução para cada questionamento levantado por Moisés, mesmo assim parecia mais fácil tentar fazer com que Deus mudasse de ideia do que obedecer e assumir a posição para a qual estava sendo chamado. Moisés só assumiu sua posição quando o Senhor se mostrou irado com as desculpas que tentava levantar para mudar os seus planos (Êxodo 4: 14), mesmo assim não mostrou apenas sua ira com as desculpas, mostrou-lhe também as soluções. A solução final que Deus dá a Moisés nos ensina também, que quando ele nos chama para algo, jamais nos deixará sozinho ou desamparado, assim como Moisés pode ser amparado por Arão na sua dificuldade, que era falar (Êxodo 4: 15-17).
A noite fracassada de Pedro na verdade foi a melhor noite de sua vida, pois sob uma visão humana era apenas um momento de desgraça, mas que pode ser revertido diante da presença de Jesus naquela situação. Independente de esse momento ter sido criado pelo próprio Jesus, para que Pedro pudesse conhecê-lo de uma forma mais profunda, ou, ser uma circunstância da qual o Senhor aproveitou para lhe revelar seu chamado, o certo é que foi notória a ação fiel e poderosa de Deus na vida de Pedro.
Em toda e qualquer situação que Jesus entra é impossível ficar da mesma forma. O encontro com Jesus naquela noite revolucionou a vida de Pedro, e isso é possível perceber mais a frente, quando no livro de Atos dos apóstolos mostra a trajetória do ex-pescador e agora discípulo, que foi fundamental na formação da base da igreja primitiva. Além disso, a proposta feita por Jesus naquela noite frustrante se concretizou no capitulo 2 de Atos, onde numa pregação 3 mil pessoas se convertem ao evangelho anunciado por Pedro.
Se ainda não passamos por uma noite (momento de adversidade) em nossa vida, certamente ela vai chegar a algum momento. Quando isso acontecer não devemos esquecer essa história tão marcante, que fundamenta a verdade que está escrito nos Salmos e que poderá ser uma verdade para nós “O choro dura apenas uma noite, mas a alegria virá ao amanhecer” (Salmos 30: 5).
Que Deus abençoe sua vida.

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