quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Qual o problema de ter um "Templo de Salomão" hoje?

O vídeo abaixo é uma sugestão apenas para situar o leitor sobre o assunto que será tratado neste artigo.

Escrito por: Rogério Jardim

Finalmente depois de quatro anos, no dia 19/07/2014 o tão esperado "Templo de Salomão" teve sua primeira reunião aberta ao público pelo líder da IURD Edir Macedo. Mas somente no dia 31/07/2014 foi inaugurado oficialmente o suntuoso e magnífico edifício, contando com presenças ilustres como; chefes de estado, artistas e líderes religiosos. Para os fiéis da denominação este é um sonho realizado do qual participaram ativamente, pois muito contribuíram financeiramente ao longo desses quatro anos na expectativa de verem tão grande realização.

Não dá para negar que a ousadia empreendedora de Macedo foi minuciosa principalmente na forma de edificar o monumental prédio, não se utilizando de nenhum tipo de material para o ajunte das pedras senão apenas encaixadas da mesma forma que Salomão propôs no passado (1º Reis 6:7). É inegável também que a arquitetura, os materiais de altíssima qualidade que o compõe e os itens que o adornam dão ao edifício uma beleza sem igual, possibilitando ao estado de São Paulo uma das maiores arrecadações em impostos além de torná-lo um dos pontos turísticos do país, onde passa a acontecer visitações (quase que diárias) de caravanas de diferentes lugares, as quais tem o dever de seguirem rigorosas regras inerentes a visita, impostas pela direção do lugar. Mas com tantos pontos positivos assim, qual o problema de ter um "Templo de Salomão" nos dias de hoje?

O que entra em discussão aqui não são os pontos levantados até agora, mas sim a principal proposta da liderança por meio da elevada edificação: "CONSTRUIR UM LUGAR ONDE DEUS POSSA HABITAR".


Para considerarmos essa proposta precisamos entender o assunto como um todo e não apenas visando o templo como alvo principal.

O PROPÓSITO DO TEMPLO QUE SALOMÃO EDIFICOU

Não creio que haja a necessidade de tal construção para que Deus possa habitar atualmente, até porque se esse fosse o seu critério não faltariam templos lindíssimos que já foram construídos pelo mundo a fora, sendo assim qualquer um destes poderia ser sua habitação. Seria e é uma tolice pensar tal coisa, pois se analisarmos a palavra veremos que o templo que Salomão levantou foi aquele que Davi não pode construir em vida pelo fato de que o próprio Deus não o permitiu pelas inúmeras e recentes guerras que Davi havia travado com seus inimigos (1ª Crônicas 22: 7,8). Desta forma a incumbência recaiu sobre Salomão (v.9,10), que após 4 anos de seu reinado (2ª Crônicas 3:2) começou a edificar o templo que seu pai Davi havia propositado em seu coração.

A intenção de Davi foi motivada primeiramente por sua consciência, a qual Deus aprovou pela sua sinceridade, pois ao notar que morava numa bela casa deparou-se com a arca de Deus debaixo de uma tenda (2ª Samuel 7:2). O que conscientizava e motivava Davi em querer construir um templo era tão somente para que houvesse um lugar onde a arca (que simbolizava a presença de Deus no meio do seu povo) pudesse permanecer sem ter que ser levada a algum lugar quando houvesse assembléia do povo, tornando Jerusalém o ponto de encontro para adoração ao Senhor. 

No templo que Salomão edificou eram trazidas as ofertas do povo para o sacrifício, os levitas trabalhavam divididos em turnos para dirigir o louvor ao Senhor e auxiliar os sacerdotes nos atos cerimoniais diários, pois era a função dos sacerdotes oferecer sacrifícios ao Senhor em nome de todo o povo de Israel. Tinham ainda os sacerdotes a responsabilidade de purificar o templo e os utensílios dos sacrifícios bem como se manterem sempre limpos com corpo e roupas purificadas para que assim pudessem oferecer sacrifícios ao Senhor. Mas neste templo somente o sumo-sacerdote podia acender diariamente a menoráh e, uma vez no ano (dia da purificação / yom kipur), entrar no local mais santo do templo onde ficava a arca da aliança (santo dos santos / lugar santíssimo) para diante de Deus interceder pelos pecados do povo e pedir o seu perdão. Embora Salomão tivesse o desejo de fazer uma casa onde o Senhor pudesse habitar ele reconhecia que por mais belo e santificado que fosse esse templo isso jamais seria suficiente para suportar tamanha presença, senão para cultuá-lo e adorá-lo (2ª Crônicas 2:5,6 / 1º Reis 8:27)

O templo edificado por Salomão tornou Jerusalém um alvo de admiração, pois muitos vinham conferir o que se ouvia falar sobre ela, sobre o glorioso templo e suas riquezas e a glória que lá havia. Há duas referências sobre essa glória; uma se referia a beleza e magnitude da cidade e do templo, a outra se referia a presença de Deus manifesta, quando por exemplo os sacerdotes nem conseguiram ministrar por causa da glória de Deus que encheu o templo (2ª Crônicas 7:1-3 / 9:1-8). Entretanto o magnífico templo que Salomão edificou foi destruído por Nabucodonozor quando intentou a segunda invasão em Jerusalém no ano 586 A.C, desta vez levou maior número de cativos para a Babilônia e deixou Jerusalém totalmente destruída, incluindo o templo que além de destruído por completo foi também saqueado por seu exército, sendo levado todo o ouro e utensílios sagrados que nele havia (Neemias 1:2,3 / 2:3 / Esdras 1:7-11).

A RECONSTRUÇÃO DO TEMPLO E HERODES

Passado o tempo de cativeiro, Quando o imperador Persa Ciro conquistou a Babilônia, foi dado ao povo que lá estava o direito de escolherem se queriam permanecer na Babilônia ou retornar a Jerusalém para reconstruírem suas vidas, cidade e templo (Esdras 1:2,3). O povo retorna para Jerusalém aos poucos e em épocas diferentes, sendo estimulados em todo o tempo para cumprirem o objetivo que lhes fora incumbido. O segundo templo finalmente é concluído entre 516-515 A.C sob a liderança de Esdras, que assume a posição e chama o povo ao arrependimento novamente, pois nesse tempo o povo havia se corrompido fazendo inclusive alianças matrimoniais com povos pagãos (Esdras 9:1,2) sendo necessário desfazerem tais alianças para só então purificarem o templo para adoração ao Senhor (Esdras 10:2-4).

Nesse período de reconstrução houve um profeta chamado Ageu que foi determinante para o entendimento e cumprimento profético deste templo. Ao estimular Zorobabel e o povo que estava sob sua liderança a reconstruírem o templo, Ageu profetiza dizendo que a segunda glória manifesta naquela casa seria maior que a primeira, a seguir aponta em Zorobabel um propósito cumprido. A profecia de Ageu não deixa dúvidas quanto ao cumprimento dos propósitos divinos referente ao seu lugar de habitação preferido. Há duas coisas que precisamos observar aqui: O TEMPLO e ZOROBABEL.

A profecia de Ageu no capítulo 2:9 mostra que a glória que havia naquele primeiro templo, construído por Salomão, não se compararia a glória que seria manifesta no segundo templo. Se fosse comparado o templo construído pelos que voltaram do exílio com o de Salomão certamente poderia se dizer que a profecia de Ageu estava errada, pois a beleza e glória do segundo era ofuscada pelo primeiro. A maior glória manifesta não se referia aquela que o povo conhecia e ainda lembrava com saudades, mas sim a glória de Deus e sua presença real no meio do seu povo, isto é, na pessoa de Cristo. No capítulo 2:23 Zorobabel é apontado como o escolhido do Senhor e servo seu, que seria peça importante para a manifestação de Cristo ao mundo ao ser dito que dele seria feito um anel de selar. O profeta Isaías já havia falado sobre o servo do Senhor e o seu escolhido que traria a redenção para o pecado (Isaías 42:1). O cumprimento destas palavras é possível ser compreendido ao observar que na linhagem de Jesus aparece o nome de Zorobabel como parte de todo aquele cenário (Mateus 1:12,13 / Lucas 3:27).

Nos dias do governador romano conhecido como "Herodes o grande" este intentou agradar seu imperador e também bajular os judeus remodelando o templo que havia sido reconstruído pelos que voltaram do exílio babilônico, entretanto isso foi visto como uma afronta, pois se achava no direito de juntamente com o culto dos judeus prestar culto aos seus deuses. Esse mesmo templo era alvo de admiração nos dias de Jesus. Ao sair do templo é surpreendido por seus discípulos que admirados com tanta beleza fazem questão de lhe mostrar. Jesus porém os deixou em choque ao dizer que não se admirassem tanto, pois daquela construção não restaria nenhuma pedra, tudo seria destruído (Mateus 24:1,2). A proposta de Jesus com essa notícia era de preparar seus discípulos para esse acontecimento predizendo a destruição de Jerusalém e do templo, que aconteceu no ano 70 E.C, mas principalmente mostrar que estava chegando o momento de o verdadeiro templo para a habitação de Deus ser preparado, e isso se daria por meio da pregação do evangelho a toda criatura restabelecendo-a da ruína do pecado.

O VERDADEIRO E ÚNICO TEMPLO QUE DEUS HABITA

Ao escrever sua primeira carta á igreja de Corínto o apóstolo Paulo exorta os cristãos (templos do Espírito Santo) e os mestres que os edificam a não se tornarem impuros pelo efeito do pecado, fazendo-os observar que eles são templo / habitação / morada do Espírito Santo, que lhes foi dado da parte de Deus (1ª Coríntios 3:16,17 / 6:19,20).
Quando Estevão é preso e levado ao sinédrio, durante seu momento de defesa relembra os grandes feitos de Deus e declara, que Deus não habita em templos feitos por mãos de homens (Atos 7:48). 
Ao chegar em Atenas Paulo denuncia a prática idólatra daquelas pessoas que diziam adorar ao Deus criador, porém não o conheciam, por isso o chamavam de "O DEUS DESCONHECIDO". Paulo os censura por isso advertindo que aquele Deus, o qual chamavam de "O DEUS DESCONHECIDO", já não habitava em templos feitos por mãos de homens (Atos 17:23,24), reforçando as palavras ditas por Estevão anteriormente. 

Ao encontrar-se com a mulher samaritana Jesus a confronta sobre o que Deus espera daqueles que o servem. Quando a mulher disse que os seus antepassados adoravam naquele monte Jesus a confronta dizendo que nem naquele monte nem em Jerusalém, onde ficava o magnifico templo que os discípulos admiravam e Jesus predisse qual seria seu fim, haveria mais adoração simbólica mas sim que chegaria o tempo em que os verdadeiros adoradores adorariam o Pai pelo Espírito e em verdade (João 4: 20, 21, 23, 24, 25, 26). O próprio Jesus afirma que não mais habitaria em templos feitos por mãos, mas sim na vida de quem vivesse em adoração verdadeira a Ele, e isso somente o espírito santo pode fazer com que um pecador seja regenerado da sua condição de pecado pelo poder transformador do evangelho, sendo levado a viver em adoração verdadeira ao Pai pelo seu Espírito.

A segunda glória que seria manifesta era uma referência profética a pessoa de Cristo que seria manifesto ao mundo para redimi-lo do pecado e trazê-lo a salvação, não pelas obras nem pela lei, mas sim pela graça de Deus manifesta em Cristo e pela fé nele. Isaías afirma que nasceria de uma mulher um que seria chamado de "Emanuel"  ou "In Man El" (DEUS NO HOMEM) (Isaías 7:14 / Mateus 1:22,23). Essa profecia apontava para o salvador que não mais habitaria nos templos da época ou qualquer outro, passando a habitar no coração de todo aquele que o reconhecesse e cresse nele. O escritor aos Hebreus declara que em sua ascensão Cristo não entrou em santuário feito por mãos (Hebreus 9:24).

Sendo assim o templo criado por Macedo não tem outra finalidade a não ser negar tudo o que Cristo fez. A carta aos Hebreus revela que tudo o que figurava a antiga aliança se completa em Cristo, sendo Ele superior a tudo que fazia parte da antiga aliança. Ele consumou em si o oficio do sacerdote, do sumo-sacerdote, Ele foi o cordeiro do sacrifício e ainda prefigurou para nós o verdadeiro templo para habitação de sua presença, no qual deve ser oferecida a melhor oferta (nosso corpo / nosso viver). Construir um templo como esse e trazer as figuras da antiga aliança como evidência de verdade não passa de oportunismo, marketing e principalmente banalização da graça.

Que Deus nos ajude a vivermos em verdade n'Ele e para Ele.

Como reflexão do assunto assista o vídeo abaixo (João Alexandre - Coração de pedra)



Voltemos Ao Verdadeiro Evangelho!

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